domingo, 23 de outubro de 2011

Esculpindo uma nova Emma Zunz

Adaptar um texto de outro autor e transportá-lo para outra linguagem artística é sempre uma tarefa arriscada. Ainda mais se o tal texto for considerado por muitos especialistas como "um conto perfeito", e seu autor um dos maiores escritores da história da literatura. Esse é o caso de Emma Zunz, do escritor argentino Jorge Luis Borges. Portanto, sem querermos comparar a (evidente e) superior qualidade literária do primeiro sobre o segundo - mas apenas desejando apresentar uma recriação deste clássico - colocamos aqui, lado a lado, o trecho correspondente desse conto sem diálogo de Borges (ver post anterior) e um trecho da versão adaptada para teatro escrita pelo dramaturgo Diones Camargo (abaixo). Esperamos com isso que o leitor/espectador possa perceber os níveis de aproximação entre ambas as obras e as características narrativas que cada uma das linguagens possibilita e - às vezes também - afasta. 


"(...) EMMA: E você acaba de tornar-se uma peça desse jogo. Você é agora e é castigo, assim como é depois e será justiça, tudo ao mesmo tempo, neste tempo sem ponteiros em que nos encontramos. Porque com você, de algum modo eu estou vingando o útero que me abrigou e parindo uma nova Emma... um ser esculpido no mesmo sofrimento de minha mãe, todas as vezes em que ela foi...

HOMEM: Ahhhhhhhhhhh!!!!!!!

EMMA: Meu pai... agora só resta vingar o meu pai. E você – que nunca entenderá nada do que se passou aqui – quando estiver voltando pra sua terra e pra sua esposa gorda e infeliz, naquele navio cheio de peixes e ratos, ainda lá você estará me ajudando na vingança que está pra acontecer. A hora está marcada. A engrenagem começou a funcionar. Neste momento três gerações mergulham na lava de ódio que jorra de dentro de mim. (...)"

Trecho de O Tempo Sem Ponteiros, de Diones Camargo.



O Caos que a Memória Confunde

Días de Ódio (1954), de Leopoldo Torre Nilsson.
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(...)EMMA: E você acaba de tornar-se uma peça desse jogo. Você é agora e é castigo, assim como é depois e será justiça, tudo ao mesmo tempo, neste tempo sem ponteiros em que nos encontramos. Porque com você, de algum modo eu estou vingando o útero que me abrigou e parindo uma nova Emma... um ser esculpido no mesmo sofrimento de minha mãe, todas as vezes em que ela foi...

HOMEM: Ahhhhhhhhhhh!!!!!!!

EMMA: (pausa) Meu pai... agora só resta vingar o meu pai. E você – que nunca entenderá nada do que se passou aqui – quando estiver voltando pra sua terra e pra sua esposa gorda e infeliz, naquele navio cheio de peixes e ratos, ainda lá você estará me ajudando na vingança que está pra acontecer. A hora está marcada. A engrenagem começou a funcionar. Neste momento três gerações mergulham na lava de ódio que jorra de dentro de mim.(...)"


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Trecho (aqui ilegível) de O Tempo Sem Ponteiros, de Diones Camargo. 



"(...) Os fatos graves estão fora do tempo, já porque neles o passado imediato fica meio truncado pelo porvir, já porque não parecem consecutivas as partes que os formam.
Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações inconexas e atrozes, pensou Emma Zunz uma única vez no morto que motivava o sacrifício? Eu tenho para mim que pensou uma vez e que nesse momento perigou seu desesperado propósito. Pensou (não pôde não pensar) que seu pai havia feito à sua mãe a coisa horrível que a ela lhe faziam agora. Pensou isso com débil assombro e se refugiou, em seguida, na vertigem. O homem, sueco ou finlandês, não falava espanhol; foi uma ferramenta para Emma assim como esta foi para ele, mas ela serviu para o gozo e ele para a justiça. (...)"

Trecho do conto Emma Zunz, de Jorge Luis Borges.


Para ler o conto na íntegra, traduzido para o Português, CLIQUE AQUI.

Para ler o conto no original, em Espanhol, CLIQUE AQUI.



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ya era la que seria: Emma, Emma Zunz.


Frames do curta-metragem Splits, de Leandro Katz.  
"(...) Emma dejó caer el papel. Su primera impresión fue de malestar en el vientre y en las rodillas; luego de ciega culpa, de irrealidad, de frío, de temor; luego, quiso ya estar en el día siguiente. Acto contínuo comprendió que esa voluntad era inútil porque la muerte de su padre era lo único que había sucedido en el mundo, y seguiría sucediendo sin fin. Recogió el papel y se fue asu cuarto. Furtivamente lo guardó en un cajón, como si de algún modo ya conociera los hechos ulteriores. Ya había empezado a vislumbrarlos, tal vez; ya era la que sería (...)"



Trecho do Conto Emma Zunz, de Jorge Luis Borges. Para ler o conto na íntegra, no original em Espanhol, CLIQUE AQUI

Para ler o conto traduzido para o Português, CLIQUE AQUI.


sábado, 15 de outubro de 2011

Tempo de Vingança


"Remember, remember, the 15th of October..."
"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de plantar, e tempo de colher;

Tempo de derrubar, e tempo de espalhar as cinzas;

Tempo de sufocar, e tempo de afastar;

Tempo de perseguir, e tempo de jogar no mar;

Tempo de rasgar, e tempo de odiar;

Tempo de paz, e tempo de guerra;

Tempo de Morrer, e tempo de Matar.

Que proveito tem o vingador na vingança em que se empenha? Que todo o homem coma e beba, e goze de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus.

O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Ele pede conta do que passou.

Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo reinava a maldade, e no lugar da justiça havia impiedade.

Eu disse no meu coração: Ele julgará o justo e o perverso; pois há um tempo para todo o propósito e para toda a obra.

Disse eu no meu coração, por causa da condição dos filhos dos homens, que Ele os provaria, para que assim pudessem ver que são em si mesmos como os animais.

Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem os homens sobre os animais, porque ambos são feitos da mesma matéria.

Todos vão para o mesmo lugar: todos foram feitos do pó, e todos ao pó tornarão."

Eclesiastes Reloaded 

domingo, 9 de outubro de 2011

Você Se Lembra Disso?

Ainda não sabe do que se trata a peça de Diones Camargo em que se baseia o experimento ÓRFÃO? Então dá uma olhada nesse e-flyer lá de 2009, enviado para uma lista de seletos que compareceram em peso à leitura dramática do texto até então inédito O Tempo Sem Ponteiros, que ocorreu no saudoso espaço cultural Quinquilharia - Ateliê Colteivo. Naquela  noite, 02 de Outubro de 2009, Sofia Ferreira (a atriz do atual experimento), leu a personagem Elsa, acompanhada pelos atores Francine Kliemann (Emma Zunz) e Philipe Philippsen (Sr. Loewenthal), e do próprio Diones Camargo (homem da loja e rubricas). E então? Lembra agora? Pois é... tem coisas que são como a Vingança: ficam guardadas lá no fundo da memória, mas continuam vibrando como um terremoto.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011


Órfão (O Tempo Sem Ponteiros)
Experimento Cênico de Dramaturgia Visual


Órfão (O Tempo Sem Ponteiros) é um experimento cênico de dramaturgia visual, desenvolvido pelos multiartistas Ian Ramil, Isabel Ramil, Sofia Ferreira e Diones Camargo, com temporada de 20 de outubro a 30 de outubro, de quinta a domingo, sempre às 21h, no Museu de Arte Contemporânea de RS - Galeria Xico Stockinger - Casa de Cultura Mário Quintana - Rua Andradas, 736/sexto andar - Bairro Centro Histórico de Porto Alegre.

Este projeto foi concebido para ocorrer dentro do espaço da galeria de arte Xico Stockinger, a qual funciona como um referencial espacial criativo. O Experimento ÓRFÃO (O Tempo Sem Ponteiros) baseia-se na criação coletiva de artistas que trabalham com sua intuição criativa como elemento fundamental das suas poéticas individuais. Essas individualidades, que passam pelas áreas da música, das artes visuais e das artes performáticas, somam-se à peça O Tempo Sem Ponteiros, adaptação dramatúrgica de Diones Camargo para o conto sem diálogos Emma Zunz, de Jorge Luis Borges. O espetáculo se apropria também de recursos tecnológicos relacionados ao fenômeno da internet e tecnologias virtuais, utilzando-os como substitutos de elementos tradicionalmente centrais para a construção cênica. A tecnologia é uma das principais ferramentas deste experimento, utilizada para construir um ambiente fantástico, que se contrapõe ao realismo do conto em que este se baseia.

O enredo trata do assassinato de Abraão Loewenthal, cometido pela jovem Emma Zunz, para vingar a morte de seu pai. A narrativa fragmentada, porém com o forte atrativo da verossimilhança, pode ser reconhecida como o caso narrado por uma típica crônica policial. É importante registrar que Emma Zunz se presta a múltiplas leituras, porque o conto apresenta lacunas e produz ambigüidades que tornam imprescindível a participação do leitor na produção do fato estético. Por isso esta história tornou-se o eixo em torno do qual construímos este experimento. O que é, e o que parece ser; o real e imaginado; a presença e o virtualidade, não em oposiões clássicas, mas sim misturados.


SERVIÇO:

O QUE: ÓRFÃO (O TEMPO SEM PONTEIROS)
Experimento Cênico de Dramaturgia Visual, baseado na peça "O Tempo Sem Ponteiros", de Diones Camargo, adaptada de um conto de Jorge Luis Borges.

QUANDO: temporada de 20 a 30 de outubro, de quinta a domingo, às 21h.

ONDE: Museu de Arte Contemporânea de RS - Galeria Xico Stockinger /
Casa de Cultura Mário Quintana - Rua Andradas, 736 / Sexto andar - Bairro Centro Histórico - Fone: (51) 32215900 - mac@cultura.rs.gov.br
Capacidade: 50 pessoas - convênio/desconto no estacionamento CCMQ (Andradas, 659).

QUANTO: 20 reais inteira - desconto de 50% para idosos, estudantes, classe artística, professores.

DURAÇÃO: 50 minutos aprox.

Contato Produção: (51) 99728096.


FICHA TÉCNICA:

Concepção: Ian Ramil, Isabel Ramil, Diones Camargo e Sofia Ferreira.

Texto: Diones Camargo (baseado em sua peça O Tempo Sem Ponteiros, adaptação do conto Emma Zunz, de Jorge Luis Borges).

Atuação e produção: Sofia Ferreira.

Vídeos e projeções: Isabel Ramil.

Luz, som: Ian Ramil.

Realização: Produções de Quarto.